Sexta-feira, 3 de Março de 2006
O som da clareira 29

Em apoio da nova série do António: Quaresma....


QUANDO ME AFASTO PARA ESCUTAR A ALMA!
(Fragmento )

AGORA QUE ESTAMOS JUNTOS,
agora que a inocência regressou,
e a disposição visceral destas paredes,
agora que tudo está na mão,
quero dizer-vos uma coisa, quero dizer-vos: A dor é uma longa viagem,
é uma longa viagem que nos aproxima sempre,
que nos conduz para o país onde todos os homens são iguais;
com a palavra de Deus, seu acontecer não tem nascimento, mas revelação,
como a palavra de Deus, faz-nos de madeira para nos queimar,
como a palavra de Deus, corta os pés do rico para nos igualar na sua presença;
quero dizer-vos que a dor é uma dádiva
porque ninguém regressa da dor e permanece sendo o mesmo.
Tudo na vida chega por seus passos contados,
a primavera e o verão, a ignorância e a chuva,
porque não há nada gratuito,
não há alegria, por mínima que seja,
que não tenha que conseguir-se
como a formiga teimosa leva a carga pelo tronco acima;
não há alegria, por importante que nos pareça,
que não termine por converter-se em cinza ou em chaga,
mas a dor é como uma dádiva,
ninguém pode evitá-la,
as esperanças, o amor, o dinheiro,
todos os bens terrenos
sempre estão nela contidos e são como pássaros que voam sobre o mar,
e são como pássaros,
por mais e mais que voem nunca se afastam do seu fim.

AGORA QUE ESTAMOS JUNTOS,
e sinto a saliva a cravar-me alfinetes na boca,
agora que estamos juntos
quero dizer-vos uma coisa,
quero dizer-vos que a dor é uma longa viagem,
é uma longa viagem que nos aproxima sempre onde quer que vás,
é uma longa viagem, com estações de regresso,
com estações que não voltarás nunca a visitar,
onde nos encontramos com pessoas imprevistas e casuais, que ainda não sofreram.
As pessoas que não conhecem a dor são como igrejas por benzer,
e quisera recordar-te, pai, que há anos visitei Itália,
quisera dizer-te que Pompeia é uma cidade exacta, invariável, calcinada,
uma cidade que está em ruínas como uma mulher está nua;
quando a visitei, só restava nela
o mais efémero e transitório:
as rodadas dos carros sobre as lajes do pavimento;
assim acontece na vida;
e agora quero dizer-te
que Pompeia está queimada pelo Vesúvio como há pessoas que estão queimadas pelo prazer,
mas a dor é a lei da gravidade da alma,
chega a nós e ilumina-nos,
soletrando os nossos ossos,
e dá-nos a insatisfação que é a força com que o homem se origina a si mesmo,
e deixa em nossa carne a certeza de viver
como ficaram as rodadas sobre as ruas de Pompeia.


(LUIS ROSALES: nascido em Granada, 1910)

publicado por maria anjos castanheira calado às 19:11
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Quinta-feira, 2 de Março de 2006
...

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Robert Campi, The Madonna of Humility

publicado por maria anjos castanheira calado às 21:33
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Quarta-feira, 1 de Março de 2006
O som da clareira 28

A escuridão dos passos suspende a luz.
Avança-se sem rumo, sempre sem rumo .
No percurso o olhar ausenta-se.
Instala-se  o desnorte.


Depois vêm os momentos de silêncio.
Escutam-se as notas que ecoam na memória.
Miseráveis e esperançosos repousamos.


Dedilham-se metáforas
Incendeiam-se os fragmentos
Fazemos romper  raízes.

publicado por maria anjos castanheira calado às 17:47
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