Domingo, 10 de Julho de 2011
conto a duas mãos (4)

A casa

 

Os primeiros raios de sol acordaram-no e Girgah abandonou o abrigo sob a pedra saliente onde passara a noite. Esfregou o rosto revestido de escamas, porque ainda o sentia dormente. Com um punhado de ervas secas confeccionou uma espécie de chapéu para a cabeça, enrolando-as em círculo e mantendo-as no sítio com atilhos improvisados feitos de raízes finas e maleáveis.

Só então reatou a viagem, tendo o cuidado de caminhar pelo sopé dos montes, onde a abundância de rochas dissimulava a sua presença, ao mesmo tempo que a altitude a que se encontrava, tornava mais fácil a observação do recôncavo fértil dos vales, e das criaturas que neles deambulavam. Para se alimentar, socorria-se de tudo o que conseguia apanhar, raízes, pequenas criaturas voadoras de cor azul-turquesa que nidificavam nas covas dos rochedos, e plantas grossas cuja polpa era suculenta e doce, e que se desenvolviam nos lugares de sombra como raízes solitárias à superfície. Tinham os tons e as cores das rochas em volta e a sua casca ostentava lâminas de sílica que desencorajavam os comensais menos preparados.

Foi ao final daquele dia, o terceiro desde que iniciara a viagem, que Girgah conseguiu alcançar por fim o planalto dos ancestrais. Foi com alguma ansiedade que ele cruzou os dois blocos gigantes e vítreos que a natureza colocara naquele lugar, como as colunas diamantinas dum pórtico. O planalto estendia-se diante dele, com as suas areias e rochedos a refulgir sob a luz candente da segunda estrela. Girgah escalou uma rocha sobranceira para se certificar de que não havia perigos á espreita e, quando se sentiu mais tranquilo, tentou reconhecer os detalhes do lugar. Apesar de já estar escuro, Girgah via à mesma, tal como via todos os detalhes e seres nas profundezas da Lagoa do Refúgio, donde partira. O vale tinha a forma dum losango, em cujos limites se erguiam aquelas gemas caprichosas - quadrangulares na forma, mas de faces em losango - erguidas ao alto, em cadeia, como uma muralha a toda a volta. Todo o centro do vale era ocupado pelas carapaças abandonadas (e em vias de fossilização) dos seus longínquos antepassados, não muito grandes, com metade da altura de Girgah. Por fora assemelhavam-se a esferas de pedra, mas o espaço interior desenvolvia-se em espiral desde a abertura na parte superior. Girgah pôs de parte os receios, e foi ver mais de perto as carapaças. Eram as suas casas, as casas do seu povo, cada um dos membros da sua raça vivia numa daquelas carapaças com o corpo esguio a preencher a espiral interna, e a cabeça escamosa a assomar no topo, para comunicar, ou para se alimentarem dos seres voadores que caíam nas suas bocas, atraídos por um odor ácido a que não conseguiam resistir.

Girgah tentou focar-se no que viera fazer. No extremo do vale, no vértice oposto ao da entrada, deveria situar-se a Mesa do Sacrifício, ou o que restava dela, e o pavilhão dos ancestrais. Era aqui que, segundo a Vidente, deveria procurar o talismã sagrado, cuja posse assinalaria o fim daquele ciclo, e a migração da sua raça de volta ao Planalto dos Ancestrais.

«Estou cansado.» pensou « Quero regressar à origem, à minha família, passar o testemunho. O talismã será a minha passagem para a eternidade. Mas não sei qual é a pedra angular, não sei reconhecer o cristal inicial, primordial»

De repente, ouviu um som leve, um bater de asas suave e… leve como uma pluma surgiu uma pequena fada. «Olá, vem comigo» e sorrindo transportou-o a uma pequena fonte. « Bebe a água da fonte e entenderás.» Nisto, Girgah , transformou-se numa pequena carapaça de sílica,  transformou-se na sua própria casa. Corpo e mente em comunhão com o lugar. Agora fazia parte do seu povo. O testemunho foi passado e não se sabe a quem pertence. Às estrelas, talvez.

 

Maria e José

publicado por maria anjos castanheira calado às 22:10
link do post | comentar | favorito
.anónima
.pesquisar
 
.Maio 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
.frescos

. Revisitação

. Do Olhar

. Regressão temporal

. Conto de natal

. desencontros

. ...

. ...

. contos a duas mãos 5

. Ano Novo

. Conto de Natal

.em decomposição

. Maio 2016

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Julho 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

.tags

. todas as tags

.alguns links
blogs SAPO
.subscrever feeds