Domingo, 20 de Março de 2011
conto a duas mãos (2)

Sentou-se no baloiço do jardim e puxou por um cigarro. Uma melancolia cansada invadiu-a e os olhos deambularam pela paisagem verde na sua frente. Ouviu o silêncio da natureza sempre ruidoso e tranquilizador e fechou os olhos. A cabeça vazia, o sorriso ausente, o vazio a espreitar a alma. E porquê? Não havia razão: os seus sentimentos não tinham mudado nos últimos dias, continuava a amar placidamente as suas crianças, mantinha-se indiferente aos crescidos como era habitual, fazia carícias á sua mãe, o irmão sempre igual a si próprio, ... Porquê a melancolia? Talvez o desânimo do peso da leveza... Sim, talvez isso...Mas mesmo isso não poderia explicar o desalento que agora sentia. Reteve o fumo nos pulmões como se uma resposta pudesse emergir dessa névoa quente dentro de si enquanto o seu corpo oscilava docemente em cima do baloiço. Uma voz gutural vinda do interior da casa arrancou-a dessa tépida melancolia, e a jovem levantou-se, apagou o cigarro misturando-a na terra com a biqueira da sapatilha, colheu do pessegueiro algumas flores, esboroou as pétalas e soltou-as de passagem no canto do jardim onde as crianças estavam sepultadas. Era o seu secreto segredo, e não gostaria que alguém pudesse suspeitar disso pela natureza dos seus gestos. Amava as crianças que ali dormiam o seu sono eterno, como as amara em vida, quando as atraíra para a sua casa com promessas de gulodices e brincadeiras divertidas. Era pena que fossem tão frágeis e tão perecíveis, as crianças, e não aguentassem coisa alguma que lhes fizessem. Mas amava-as como só as amaria uma mãe extremosa, e naquelas tardes amenas no jardim gostava de se sentar á sua beira e evocar os momentos tão fugazes em que tivera a bênção e a alegria da sua companhia. Mal entrou em casa, percebeu de onde vinha o som, era a mãe, sentada no cadeirão ao pé da janela. Protestava, talvez tivesse fome, ou estivesse toda borrada. Mas agora, não tinha tempo para ela. Afagou-lhe o cabelo ao passar e procurou o irmão, ligeiramente preocupada. Descobriu-o sentado na cozinha, andara a vasculhar as gavetas e encontrara o que procurava, uma faca esquecida com a qual fizera pequenas incisões no antebraço, cortes em fio donde escorria sangue. Sentou-se ao seu lado, passou-lhe o braço pelos ombros e tirou-lhe a faca, sem violência, mas com firmeza. Ele ainda se debateu um pouco e começou a protestar, mas ela abraçou-o com ternura, enquanto espreitava a fundura dos golpes. Sentia o seu arfar aflitivo contra o seu peito.

 

 

- Mana, quando é que arranjas mais amiguinhos para eu brincar? Perguntou-lhe ele com voz de menino mimado.

 

- Em breve, muito em breve…Prometo!

 

 

Maria e José

 

 

meu caro josé...este até a mim arrepiou!

 

 

 

publicado por maria anjos castanheira calado às 21:24
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2 comentários:
De José a 23 de Março de 2011 às 22:11
:)
Sorry, o próximo vai ser bem light, no domínio do Sci-fi ;)
De maria anjos castanheira calado a 27 de Março de 2011 às 23:54
ok, venha ele..:)

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